Desdizendo

Mezza jornalista, mezza poetisa. E totalmente vazia.
Digo e desdigo coisas, porque a arte mais sublime é a de confundir pessoas com palavras simples.
Simples assim.

Shoo

Há um ano atrás eu estava ensopada e com raiva. Nossa primeira briga. A oficial. Foi também a primeira vez que me disse “Eu te amo Flor”. E eu já sabia disso.

Já sabia que me amava e já sabia que iria te amar da mesma forma. Só guardei isso por mais algumas semanas porque precisava ter certeza de que estar contigo não seria sinônimo de “matar o meu amigo Vinicius Alves”. 

Não consigo imaginar uma vida sem Vinicius Alves. Isso há quase dois anos. Aquele amigo que está online sempre, cujas conversas pelo Google Talk poderiam render um romance (bem grande).

Lembro da segunda vez que nos encontramos, em dezembro de 2011. Nada mais éramos do que amigos. Eu cheguei atrasada e trouxe uma paçoca para me desculpar. Você usava aquele boné que eu odeio. 

Sei que foi paciente, sei que foi meu amigo porque já me viu nas condições mais fragilizadas e nunca se aproveitou disso. Saía comigo pelo simples prazer da conversa, da cerveja e da coxinha do China’s.

Você zomba da minha meia-calça vermelha até hoje e mesmo estando oficialmente juntos há quase um ano, vez ou outra eu tenho medo de perder meu amigo Vinicius.

O que quero dizer é: eu te amo. Como amigo. Como sócio afetivo. Como comparsa de vida. Como alguém que me ouviu quando eu precisava falar e falou quando eu precisava ouvir. Com calma, respeito, serenidade. Com paixão e com amor. E que é, antes de mais nada, meu amigo.

Feliz aniversário meu amor.

Cau - Maria

Tinha um jeito muito peculiar de lidar com as coisas. Nunca se exaltava, fazia imitações, danças estranhas, franzia a testa e sorria diagonalmente. Esse era seu estado mais comum.

Odiava aqueles sapatos horrorosos que desfilavam em seus pés por aqueles longos corredores gelados e opressivamente brancos. Seus olhos, sempre um pouco vermelhos de sono, reluziam quando fixavam-se em algo ou alguém.

Acho que quando nervoso, deveria ficar vermelho. Não sei ao certo, nunca o vi nervoso. Nem vermelho. Lembro que gostava de caminhar com uma mão no bolso, um passo descompassado e despretensioso. Seus cotovelos eram gastos e tenho quase certeza que poderíamos falar sobre música a tarde toda.

Filmes, comidas, eventos, como o fiapo de manga prende no dente, por que Balrog não tem asa, os elementos da tabela periódica, lavagem à seco, a direção que o musgo cresce.

O que tiro de tudo isso é que tinha um jeito peculiar de lidar com as coisas. E isso me acalmava. 

Acabaram os florais

Acalento a solidão involuntária da noite com uma ansiedade e melancolia que não compreendo.

Fumo um cigarro ainda com a vela e o pedido queimando. A esperança é que quando a chama finalmente apague, a angústia se vá e dê lugar à justiça. A minha justiça, pessoal e intransferível.

A garganta arde, mas o peito a esfria. Já nem sei mais o que quero. Só quero e nem sei de mais nada.

Nessa madrugada só queria ser menos eu. Ser eu me flagela de um jeito único. Por baixo da couraça de cabelo e marra, só a derme sabe o sabor do sal e da água provenientes do próprio corpo.

Os olhos azuis ficam violetas e o vermelho se faz nítido. Em shots incontáveis de água com açúcar, paira o prelúdio de uma ressaca pior que a de tequila.

E a boca outrora imparável berrando suas verdades doces - porém duras - agora decanta o gosto amargo.

As a bird

Levei 15 anos para perceber que você, embora com quase 1/4 de século, nunca amadureceu mais que 15 anos.

Seu raciocínio perpetuou, sua inteligência idem. Seu talento para essa profissão que eu sabia que era o seu tamanho comprovam isso. Quando te tirei da sua visão equina das coisas, tirei o cabresto que te enfiaram, mostrei que a vida tinha outras trilhas, você brilhou. Foi alto, foi longe. Foi perfeita.

Mas no fundo, ainda é aquela menina mimada, que reprime as coisas e as amargura, com ar blasé, como se tudo fosse desimportante. Como se de fato, sua vida seguisse tão boa quanto suas fotos editadas para ressaltar essa beleza tão natural que não exige nenhuma edição.

Devora homens e livros com uma ânsia para se tornar madura, mulher, sensual, como se precisasse equiparar-se às vadias mais burras e profanas. Já disse, várias e várias vezes: não precisa.

Mas você nunca me escuta. Quebra a bela face na vida dura, se machuca, erra, erra de novo e depois pede colo, pede uísque, pede um tempo. Pede distância.

Só queria que seu orgulho pueril te tirasse dessa jaula de falso feminismo, de falso moralismo, de falsa raiva que só envenena sua própria essência. Porque no fundo, ela é boa. Só está mofada, embolorada com as mágoas que você enterrou no seu ego demasiado frágil para sucumbir ao perdão - aos outros e a si própria.

Eu levei 15 anos para descobrir isso. Mas finalmente, estou livre.

Soneto do Amor Maior (inspirado pelo Soneto do Maior Amor) - De Vinicius de Morais para Vinicius Alves

Amor maior nem mais estranho existe
Que   mesmo catarrada
E se me vê com febre. fica triste
E se corada, dá risada

E só fica em paz se insiste
Em brincar com bocão, e que se agrada
Mais da eterna zueira que persiste
Que de uma relação sem gargalhada

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a reconhecer - e ama mesmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo a esmo

O que é abraço?

É carinho que a gente desprende um pouco do corpo para repassar aos outros e recebe em dobro quando faz direito.

 

 

 



* Baseado no exercício de edição ministrado por Marcio Yonamine no CCSP em dezembro de 2012, com base no livro “Fragmentos de um discurso amoroso”. BARTHES, Roland

1/2 fado fracasso

Está fadado
Ao fracasso
Aquele falido ser
Vencido pelo cansaço
Que já não consegue ter
Um pequeno e breve espaço
Para reconhecer
Que não há vítimas, nem almas de aço
Apenas humanos, em seu estado nefasto 
Buscando apenas se convencer
De que tudo não passa de mais um grande fiasco
Da piada que é viver

Condi(u)ção

Eu quero que flua
Não quero a obrigação
De um beijo de recepção
Mas me recuso à partida
Sem um beijo de despedida
Seu ou da lua 

Sobrehumanos

Alguns raros são de fatos brilhantes
Enquanto a grande maioria se resume aos sebosos

Sinistro Humano

Aquela coisa por canhotos que ninguém explicava. Aquela coisa. Ah, ninguém explicava.